arquitetura·design·arte

Olhar sobre a Espanha: o Renascimento Espanhol

Sexto artigo da arquiteta Maria Pilar Arantes, que atualmente mora na Espanha onde cursa História da Arte. Pilar é colaboradora do portal ArqSC para o qual escreve apontando seu olhar para o país.

Por Maria Pilar Arantes Publicado em 2 de janeiro de 2020 Notícias 5 min de leitura
Compartilhar

Palacio ducal de Lerma (Burgos), desde 2003 parador nacional de turismo. 1615.

Sexto artigo da arquiteta Maria Pilar Arantes, que atualmente mora na Espanha onde cursa História da Arte. Pilar é colaboradora do portal ArqSC para o qual escreve apontando seu olhar para o país. Pós-graduada em Arquitetura e História das Cidades pela Universidade Federal de Santa Catarina e fundadora e diretora do Centro de Artes e Design (ww.centrodeartesedesign.com), um centro de pesquisa, formação e difusão do design de interiores e das artes, em cujos cursos já se formaram, desde 1999, mais de 5 mil pessoas. É escritora e registra suas viagens por meio de fotografias.

Acesse os outros artigos: Olhar sobre a Espanha: Arte Islâmica, sobreposição de fé, cultura e arte; Olhar sobre Espanha – arquitetura e arte na península ibérica; Uma viagem no tempo da arquitetura e da arte espanhola;, Arte Românica – a força do cristianismo nas artes e Arte Gótica, a Europa em expansão e transformação.

 

 

O Renascimento é o período histórico que sucede a Idade Média. Se considera que a fase de sua definição até concreção se dá entre os séculos XVI e XVII, porém, como acontece com as artes em geral, seus precedentes se encontram nos séculos XV e até no XIV. A arquitetura renascentista na Espanha teve suas peculiaridades e seguiu um rumo próprio em sua fase de afirmação, determinando nomes para cada fase de seu desenvolvimento de acordo com suas características estéticas e construtivas.

Em sua primeira fase, a arquitetura renascentista na Espanha aparece com o denominado estilo Reis Católicos,  que tem características do gótico em sua estrutura, porém começa a revestir-se de elementos decorativos profusos e detalhados. O estilo Reis Católicos recebeu outras duas denominações válidas na história da arte espanhola (mas também motivo de discórdia entre os historiadores):  o Gótico Isabelino e o estilo Plateresco.  O Gótico Isabelino, ou simplesmente Isabelino, foi a denominação dada pela própria Rainha Isabel, que governou entre 1474 a 1504. Este estilo era muito rebuscado, recebendo adornos que lembravam os trabalhos feitos em prata repuxada, por isso também recebeu o nome de estilo Plateresco. É considerado um período de transição entre o Gótico espanhol e o Renascimento espanhol.

A chave da mudança que ocorre no período denominado Renascimento está no desenvolvimento de uma nova visão holística. As ciências, impulsionadas pela revalorização da antiguidade greco-romana (seus filósofos e suas artes) avançam de tal maneira que atingem todas as demais áreas da vida humana.

O uso de novas máquinas impulsiona o desenvolvimento econômico. As novas tecnologias permitem viagens em barco e descoberta de terras, cujo confronto com costumes e populações no novo mundo corrobora para o questionamento de dogmas religiosos. Inicia-se uma forte crise no seio da Igreja Católica, que culmina na Reforma Protestante e na Contrarreforma, alterando definitivamente a expressão artística na arquitetura e nas artes —o gosto pela estética clássica vindo de Itália, também conhecido como Classicismo, também permite que apareça a figura do mecenas, o patrocinador, que financia as artes independente da Igreja —surge o artista autônomo.

Espanha ainda tem mais uma peculiaridade. Sendo um período de descobertas de terras e conquista de novas colônias no ultramar, aumenta a necessidade de defesa de sua costa; é impulsionada pelo emprego da artilharia, levando à construção de fortes de defesa com características em sua arquitetura que passariam também aos palácios, às muralhas das cidades e às edificações que fossem construídas no perímetro da muralha —surgem as “Ciudadelas”, ou “Baluartes” —recinto fortificado dentro ou fora de uma cidade com a função de defesa ou refúgio. O elemento arquitetônico mais marcante é a construção dos muros inclinados e a colocação de “bastiões” —duas faces que sobressaem da muralha em forma angular, desde a qual se usava de local de disparo da artilharia.

A segunda fase da arquitetura renascentista espanhola desenvolve-se na segunda metade do século XVI e é conhecido como purismo. É caracterizada por uma maior austeridade decorativa, limitada a alguns elementos concretos, geralmente de inspiração clássica. Há um certo cansaço da exuberância decorativa. Além disso, a arquitetura italiana e as formas clássicas são agora mais conhecidas. O purismo é liberado das convenções góticas, para entrar no Renascimento pleno. Os arcos-plenos decoram as fachadas, e a decoração é reduzida às portas e janelas. Os edifícios adquirem uma aparência mais serena, harmoniosa e equilibrada.

A terceira fase da arquitetura renascentista espanhola foi também conhecida por “estilo Herreriano” devido ao sobrenome do arquiteto Juan de Herrera, responsável por levar a cabo a construção do Palácio El Escorial (de 1563 a 1584), construído para ser a residência oficial dos reis, e que influenciou a arquitetura nobre espanhola a partir da segunda metade do século XVI. O estilo do Paláio El Escorial é caracterizado pela predominância de elementos construtivos, ausência decorativa, linhas retas e volumes cúbicos. Formas geométricas simples, pirâmides, cubos e esferas dominam a planta. E a horizontalidade predomina, quebrada apenas pelas torres de esquina e cúpulas da basílica. Os telhados são cobertos com ardósia. A planta se assemelha a uma grade, embora na realidade consista em vários retângulos.

O estilo Herreriano foi especialmente ativo até meados do século XVII, embora coexistisse — como sempre com todas as tendências artísticas — com as formas mais coloridas do classicismo renascentista, e com as primeiras manifestações barrocas. E junto com o Plateresco, o estilo Herreriano foram as manifestações artísticas do Renascimento tipicamente espanholas.

O seguinte período da história das artes na Espanha anunciava a arte Barroca, impulsionada pela Contrarreforma da Igreja Católica, que também teria suas próprias características distintas de outros lugares da Europa, numa Espanha ainda muito religiosa. Mas isso é tema para a próxima postagem…

 

Fonte das imagens

Imagens: 1, 2, 3, 4, 6, 7, 8, 9 – Maria Pilar Arantes

Imagens: 5, 10, 11, 12, 13 – ©Wikipédia.