Procuro trazer aqui nesse ensaio uma tentativa de interlocuções possíveis acerca da experiência gentrificadora do espaço da cidade, tomando como ponto de partida o pensamento de que estamos numa sociedade do espetáculo mediada pela noção de uma estética da dominação em contraponto à uma estética da parceria.
Na sociedade de parceria, valores mais sensíveis de compartilhamento e equidade aparecem, atividades criativas e de criação são mais frequentes e expressivas.
O convite, então, inclina as atenções para uma territorialização na Teoria da Transformação Cultural proposta por Riane Eisler no livro O cálice e a espada: nosso passado, nosso futuro mediada por algumas ideias de Guy Debord em A sociedade do espetáculo. Podemos sintetizar as ideias de Riane Eisler na existência de duas sociedades: a sociedade de parceria e a sociedade de dominação. Na sociedade de parceria, valores mais sensíveis de compartilhamento e equidade aparecem, atividades criativas e de criação são mais frequentes e expressivas. Já na sociedade de dominação, valores mais agressivos e competitivos surgem, evidencia-se um escalonamento e hierarquias e a desigualdade prevalece por meio das diferenças. Há na sociedade de dominação atividades que giram em torno da guerra e disputas, as tecnologias voltam-se para armamento e paira uma atmosfera belicosa no ar.
Sob esta ótica, destaco que as condutas formadoras da sistemática das ações que na vida cotidiana queremos (re)significar são aquelas legitimadoras do outro na convivência, fundando o social, agregando um conversar e um escutar dentro de um modo de viver, incluindo lembranças, partilhas, colaboração. Infelizmente, o que verificamos numa mirada nos acontecimentos contemporâneos é um (pré)domínio de um modo de convivência humana de repulsa ao respeito das diferenças, negando o outro por meio da ruptura da rede de conversações e convívios destas diferenças.

Experiência da Subjetividade
Então, a intenção aqui é pensar como a estética, ou um projeto estético de sociedade, pode ser o propulsor da noção de uma experiência gentrificadora do espaço da cidade. Podemos partir do pressuposto de que a experiência estética traz consigo a experiência de subjetividade à nossa contemporaneidade tão rasgada e atravessada por ritmos e valores aleatórios e dinâmicos. Logo, esses valores, por serem tão fugidios, são completamente ignorados por acadêmicos e técnicos que olham/desenham/pensam a cidade. Na experiência da subjetividade surgem cartografias que apontam variáveis difíceis de se “dominar”. Em uma ação gentrificadora percebe-se, como estratégias de imposição de um projeto estético-social, desmanches realizados justamente no campo do sensível que desterritorializam subjetividades circundantes a uma experiência estética, reterritorializando a própria experiência estética como valor de prestígio social numa tentativa clara de anulação de uma consciência de lugar social.
“A alienação do espectador em favor do objeto contemplado (o que resulta de sua própria atividade inconsciente) se expressa assim: quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos compreende sua própria existência e seu próprio desejo (…)” [Fragmento tese 30 d’A Sociedade do espetáculo] (DEBORD, 1997, p. 24).
Constato nesse projeto que força uma territorialização, desterritorialização e reterritorialização em torno da experiência estética o impulso de um movimento de aburguesamento (ou gentrificação) dos espaços da cidade o qual bebe no cerne da sociedade da dominação apresentada por Riane Eisler. Por mais invisíveis ou difíceis de serem detectados e/ou nomeados, estão em voga nesse movimento gentrificador valores como expulsar, separar, extratificar, acentuar desigualdades. Com tais valores vem à tona uma falta de respeito à diferença. A diferença aqui deve ser entendida como aquilo que é inerente ao ser, uma maneira de estar-no-mundo, as subjetividades na sociedade contemporânea.
Mais uma vez recorro a Guy Debord, quando este nos aponta que
“(…) o urbanismo é a tomada de posse do ambiente natural e humano pelo capitalismo que, ao desenvolver sua lógica de dominação absoluta, pode e deve agora refazer a totalidade do espaço como seu próprio cenário” [Fragmento tese 169 d’A Sociedade do espetáculo] (DEBORD, 1997, p. 112).
e acentuo que a gentrificação deve ser vista como uma estratégia da classe dominante de pôr em prática um projeto excludente de espaço urbano, não respeitando as diferenças, sendo intolerante à experiência da subjetividade, normatizando valores de dominação e sufocando possíveis expressões de parcerias e/ou compartilhamentos na cidade contemporânea.

Por fim, a experiência gentrificadora do espaço da cidade é problematizada nesse ensaio nas vivências que temos da apreensão contemporânea da cidade considerando que vivemos em espetáculos e por espetáculos (DEBORD, 1997). Será que já estamos mergulhados num projeto estético-social com base numa anulação de um corpo que solicita um entrelaçamento com a experiência (inter)subjetiva? A noção de compartilhamento que nos vem diariamente bater à porta com botões de “curtir” não estaria inserido num contexto de “gelatinizar” uma experiência do belo e preparar um território pseudo-subjetivo para agentes outros dominar aqueles que ainda tentam clicar em botões ou compartilhar discursos facebookianos?
“Na prática, é só com os adultos das calçadas que as crianças aprendem – se é que chegam a aprender – o princípio fundamental de uma vida urbana próspera: as pessoas devem assumir um pouquinho de responsabilidade pública pelas outras, mesmo que não tenham relações com elas. Trata-se de uma lição que ninguém aprende por lhe ensinarem. Aprende-se a partir da experiência de outras pessoas sem laços de parentesco ou de amizade íntima ou responsabilidade formal para com você, que assumem um pouquinho da responsabilidade pública por você” (JACOBS, 2014, p. 90).
É difícil gerar compartilhamentos reais/verdadeiros, criar uma sociedade da parceria em um cenário como o nosso atual, um cenário de dominação com valores belicosos que oprimem qualquer movimento criativo em prol de uma sociedade mais equânime. Proponho, então, uma ação de resistência: discutir e problematizar a gentrificação a partir desse marco teórico-estético-social. Cabe, justamente, entender o papel de arquitetos/as, urbanistas, artistas, pesquisadores/as e técnicos/as que atuam no espaço urbano como possíveis potencializadores/as de uma estética da dominação ou de uma estética da parceria.
É uma cartografia do entre e não uma ação do sobre. Não é ver mapas e traçar diagramas com cores e esquemas de ações-vôo-de-pássaro. É entrar nos mapas numa relação horizontal, percorrer lugares, sentir esquinas e pessoas, envolver-se de corpo e com os corpos. Não diagnosticar, sentir a cidade. Deixar se contagiar pela experiência subjetiva e a partir daí traçar (se possível) desenhos de cidades que expressem a parceria adormecida de estar-junto.
Referências
DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
EISLER, Riane. O cálice e a espada: nosso passado, nosso futuro. São Paulo: Palas Athena, 2007.
JACOBS, Jane. Morte e vida de grandes cidades. São Paulo: Martins Fontes, 2014 [edição original de 1961].
Rodrigo Gonçalves, também conhecido como Gonça, é arquiteto, artista e professor. Graduado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Cursou Artes Cênicas na Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). É professor de Projeto Arquitetônico do Departamento de Arquitetura e Urbanismo e do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo (PósARQ) da UFSC. Coordena o Grupo Quiasma: Estudos e pesquisas interdisciplinares em arquitetura, corpo e cidade (ARQ/UFSC). Em seu processo criativo busca atuar num campo ampliado da arquitetura e urbanismo pesquisando seus limiares com a arte contemporânea.