Dizem que as melhores ideias surgem de madrugada e, dessa vez, vamos ter que concordar. Entre as tantas experiências que vivemos durante a 10ª edição da Semana Criativa de Tiradentes, uma conversa com Lilian Simões, Regiane Lima e Sérgio Matos nos marcou de forma especial. Foi ali que conhecemos o projeto Parintins Criativo: Do Festival ao Futuro, uma ideia que nasceu em uma conversa de madrugada, entre pessoas apaixonadas pelo que fazem e pela cultura que as cerca.

O projeto, apoiado pelo Sebrae Amazonas, parte de uma das maiores manifestações culturais do país, o Festival de Parintins, e transforma materiais remanescentes das alegorias e produções em produtos de decoração, mobiliário, design e moda, criando oportunidades de trabalho e geração de renda para os artesãos durante todo o ano. Se já éramos encantadas pelo universo de Parintins, não teve como não sair daquela conversa ainda mais fascinadas, embasbacadas e inspiradas pela potência de sua cultura e das pessoas que a constroem.
Em Parintins, as crianças brincam de Boi-Bumbá e crescem sonhando em ser sinhazinha ou cunhã-poranga. A força cultural do festival é algo que nós, aqui em Florianópolis, não estamos acostumadas a ver. A produção artística mobiliza famílias inteiras e faz parte da identidade e do cotidiano de quase toda a população: é uma cultura viva, construída coletivamente e transmitida entre gerações.
Para nós, o que mais chamou atenção foi a relação dos artesãos com seu trabalho. Os palestrantes nos contaram que, em muitos casos, um profissional passava dias costurando ou produzindo partes de uma alegoria sem necessariamente saber onde aquela peça seria utilizada no espetáculo. Dominava a técnica com perfeição, mas nem sempre tinha a dimensão de como seu trabalho contribuía para a construção do festival. E, com o projeto, esses profissionais passaram a ter novas oportunidades de criação e de reconhecer o valor dos próprios conhecimentos.

A artesã Regiane Lima, que participou da conversa, é um exemplo disso. Integrante do coletivo Mãos Criadoras, ela desenvolveu a luminária Kurima a partir de folhas de andiroba, utilizando uma técnica própria que une conhecimentos sobre materiais da região, experimentação e inovação. Seu trabalho mostra como os saberes locais podem encontrar novas aplicações e alcançar outros espaços, sem perder a conexão com o território de onde vêm.
Já se passaram alguns dias e seguimos conversando sobre tudo o que vimos e aprendemos. Vivemos em um mundo de referências cada vez mais repetidas e replicáveis, de novas tendências e de uma busca constante por novidades, muitas vezes em outros países e mercados. Mas será que parte da inovação que buscamos já não existe nos saberes do nosso próprio país? Temos uma enorme diversidade de técnicas e formas de fazer que atravessam gerações e carregam nossa história e cultura.
Acreditamos que os profissionais dos grandes centros têm muito a aprender com os conhecimentos que existem fora deles. E pensar uma arquitetura verdadeiramente brasileira vai muito além de uma estética ou da escolha de determinados materiais. Passa também por reconhecer quem produz, valorizar os saberes por trás das técnicas e criar oportunidades para que esses conhecimentos continuem vivos. O projeto Parintins Criativo nos mostrou como o encontro entre tradição e novas ideias pode abrir caminhos para a inovação, sem deixar de lado a identidade e as pessoas que estão na origem de tudo isso.

Voltamos de Tiradentes com ainda mais vontade de olhar para o que é nosso. De conhecer outros materiais, histórias e formas de fazer, de nos aproximar de artesãos e produtores e de trazer essas trocas para o nosso próprio trabalho. Saímos especialmente inspiradas pela ideia de valorizar aquilo que já existe em cada território e com vontade de levar um pouco dessa essência para a nossa terra, para os nossos projetos e para a maneira como pensamos e fazemos arquitetura.



