Em novembro de 1944, durante uma semana, a sede do Instituto Brasil Estados Unidos (IBEU) em Florianópolis recebeu a exposição “Brazil Builds – arquitetura brasileira antiga e moderna”. Fruto do livro homônimo, a exposição teve origem na encomenda do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) e registrou a visão de dois norte-americanos sobre a arquitetura brasileira, desde o período colonial até 1942. Depois da grande repercussão da exposição em solo estadunidense, uma versão reduzida da expografia, apenas com fotografias em grande formato, circulou por diversas cidades brasileiras, chegando a Florianópolis.
Se a arquitetura colonial brasileira presente em Brazil Builds era característica da paisagem florianopolitana, o mesmo não se pode dizer dos edifícios modernos nela retratados, entre os quais, projetos de Burle Marx, Rino Levi, Carlos Leão, Lucio Costa e Oscar Niemeyer. A exposição foi, provavelmente, o primeiro evento na ilha que apresentava, de forma sistematizada, elementos da vanguarda da arquitetura brasileira que começava a se tornar célebre internacionalmente.
Um dos primeiros edifícios de linguagem racionalista construídos em Florianópolis é de 1943. Trata-se da antiga sede do IPASE, projetada pelo engenheiro Raul Pinto Cardoso, situada a poucos metros do Teatro Álvaro de Carvalho. Nele, encontramos a forma retangular sobre pilotis, com térreo recuado, planta modulada e flexível e janelas com vãos maiores, ainda que não em fita. Nos anos seguintes, a arquitetura ainda oscila entre o art déco, o classicismo e o neocolonial, mas aos poucos alguns projetos vão assimilando elementos do Movimento Moderno, como os brises presentes no Edifício do IPESC (1945), do engenheiro Calvy de Sousa Tavares. Na década seguinte, Florianópolis testemunha importantes movimentos no sentido de uma abertura em relação às vanguardas artísticas. Em 1948 passa a ser publicada a Revista Sul, importante meio de divulgação da arte moderna em suas variadas expressões. Em 1949, o arquiteto Flávio de Aquino, catarinense radicado no Rio e colaborador de Niemeyer, apresentou um projeto para o Museu de Arte Moderna de Florianópolis, nunca executado. É nos anos 1950 que são elaborados planos desenvolvimentistas, assim como planos urbanísticos para a cidade, é também quando surge uma série de edifícios já alinhados com novos modos de pensar a arquitetura. Num campo ainda marcado pela atuação informal de projetistas, muitos sem graduação, uma “modernidade possível” para as condições da provinciana capital, nas palavras do professor Luiz Eduardo Fontoura Teixeira, ia tomando força, abrindo alas para grandes projetos realizados nos anos seguintes.
A fundação de importantes instituições, como UFSC, UDESC e CELESC, assim como a instalação da ELETROSUL, atraíram novos moradores que, por sua vez, criaram uma demanda por habitação, comércio e serviços – um campo cheio de possibilidades para arquitetos e engenheiros vindos de outras regiões e países, que encontravam oportunidades
Num estado que ainda não possuía escolas de arquitetura. É somente em 1977 que surge o Curso de Graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFSC.
SAIBA SOBRE A EXPOSIÇÃO “MODERNOS NO DESTERRO”
No contexto das publicações de arquitetura, na década de 1980, a coleção de livros organizados pelo arquiteto Alberto Xavier em colaboração com outros autores buscava recortar projetos significativos da modernidade na arquitetura das regiões sul e sudeste. A popular coleção consiste nos volumes Arquitetura Moderna Paulistana (1983); Arquitetura Moderna em Curitiba (1985); Arquitetura Moderna em Porto Alegre (1987), e Arquitetura Moderna no Rio de Janeiro (1991). Em 1987, o prólogo da edição dedicada à capital gaúcha indicava que uma edição dedicada a obras modernas de Florianópolis seria finalizada, o que evidencia que já havia um número significativo de projetos que justificasse a edição de um livro. Cabe salientar que as outras edições reuniam cerca de 180 projetos cada. A edição catarinense entretanto nunca existiu, deixando uma lacuna na documentação da arquitetura moderna local.

Um dos intentos mais recentes, Itinerários da Arquitetura Moderna – Florianópolis (2016), de Luiz Eduardo Fontoura Teixeira e Gilberto Sarkis Yunes, reúne em catálogo dados de uma série de edifícios representativos de distintos ciclos da modernidade, incluindo o neocolonial e o art déco, compreendidos no período de 1934 a 1988. A publicação, entretanto, não acessa os desenhos das obras, limitando-se às fichas técnicas e à localização geográfica, separando-as em 5 setores da cidade.
A exposição que você vê agora apresenta parte do trabalho que vem sendo desenvolvido no Departamento de Arquitetura e Urbanismo da UFSC, no âmbito do projeto Arquitetura Moderna em Florianópolis. A pesquisa, coordenada pelo professor Eduardo Westphal (ARQ-UFSC) e desenvolvida em conjunto com os arquitetos e pesquisadores João Serraglio (IAB/SC) e Leonardo Bertoldi (IAB/SC), consiste na catalogação e documentação de obras significativas da arquitetura moderna em Florianópolis, compreendendo projetos realizados entre 1943 e 1988. O processo de documentação inclui o redesenho das obras, atividade que vem sendo desenvolvida com a participação de diversos colaboradores, a maioria estudantes de graduação, cujos nomes constam nos créditos da exposição.
Quarenta anos depois da promessa da edição de um livro dedicado a reunir um grande conjunto de obras da arquitetura moderna florianopolitana, a lacuna documental começa a ser preenchida. A pesquisa Arquitetura Moderna em Florianópolis catalogou até o momento mais de 140 projetos na cidade. Em Modernos no Desterro, 60 projetos deste recorte foram selecionados, organizados numa linha do tempo que os relaciona aos contextos político, cultural e econômico de suas épocas. 22 edifícios foram selecionados para uma mostra pormenorizada, com redesenhos e maquetes elaborados a partir da pesquisa, trazendo ao público a oportunidade de compreender melhor algumas obras, fortalecendo a assimilação de uma identidade arquitetônica local, que nos permite alinhavar passado, presente e futuro.





































