O designer mato-grossense Sérgio Matos consolidou, desde dezembro do ano passado, uma parceria com a Artefacto que lhe permitiu se dedicar somente à criação, deixando a gestão do seu estúdio e concentrando-se na investigação de materiais, tramas e modos de fazer em busca de novidades para um mercado saturado, em suas palavras. “O mercado hoje está muito padronizado”, afirma nesta entrevista exclusiva ao ArqSC.
As novas peças assinadas pelo Estúdio Sérgio Matos vão na contramão dessa perspectiva. Evocam asas, conchas, ninhos e colônias naturais, ocupando o espaço com presença marcante. Interessa ao designer transformar a natureza em linguagem a partir da observação de suas estruturas, ritmos e sistemas invisíveis.
A coleção foi lançada pela Artefacto Beach & Country em homenagem aos 50 anos da Artefacto, comemorados em 2026. O trabalho combina técnicas artesanais e processos tecnológicos de alta precisão. Fibras orgânicas curvadas manualmente dialogam com madeira esculpida e acabamentos refinados, resultando em objetos que conciliam caráter escultórico e função cotidiana.
MOSTRA ARTEFACTO FLORIANÓPOLIS
O designer, que abriu seu estúdio em 2010 e acumula prêmios nacionais e internacionais, considera importante a atemporalidade do móvel, que, na sua perspectiva, está relacionada à capacidade de contar a história de um lugar, de quem o fez e de onde vieram o conceito e a inspiração.
A coleção para a Artefacto chega no ano em que você completa 50 anos – e a marca também. Você foi convidado para ser designer exclusivo da marca. O que muda e o que te interessa neste momento?
Creio que o que muda com essa parceria com a Artefacto é que, a partir de agora, temos uma empresa trabalhando junto às nossas duas marcas, a minha e a Artefacto, para criar um novo modelo de produtos dentro da Artefacto, que converse tanto com a linguagem da marca quanto com a linguagem do estúdio. De toda forma, o estúdio continua existindo e a criação das peças que já fazemos continua sendo desenvolvida à parte, mas tudo passa a ser comercializado pela Artefacto. E criamos as peças para a Artefacto pensando no conceito e na linguagem da marca, trazendo também um pouco da nossa linguagem. É essa união que permite criar produtos contemporâneos e, ao mesmo tempo, atemporais. A ideia é essa.
Qual a leitura para a coleção que marca esse novo momento?
O que mudou para mim foi deixar a parte de gestão da empresa, de vendas e de showroom. A Artefacto também está me ajudando nesse processo e, agora, posso focar somente no que realmente me interessa, que é criar produtos, pensar novas peças e entender o consumidor da Artefacto. O que me interessa neste momento é justamente desenhar para esse público e para essa linguagem.
Temos pesquisado novos materiais, novas tramas e novos modos de fazer, acho que é isso que o designer busca, trazer coisas novas para um mercado que, às vezes, se satura porque todo mundo acaba fazendo o mesmo. O mercado hoje está muito padronizado.
O que está investigando no momento para a Arttefacto?
No momento, estamos trabalhando em uma investigação que já dura cerca de seis meses sobre a criação de tramas, algumas das mais difíceis que encontramos. São tramas que vemos apenas em alguns tecidos, trabalhos muito finos, e queremos trazer isso para o mobiliário.
Temos investigado muitos tipos de tramas e algumas já estamos conseguindo implementar na Artefacto, mas o que eu quero é trazer sempre o novo, mesmo que seja difícil de produzir, mesmo que sejam peças com um número maior de detalhes. Temos pesquisado novos materiais, novas tramas e novos modos de fazer, acho que é isso que o designer busca, trazer coisas novas para um mercado que, às vezes, se satura porque todo mundo acaba fazendo o mesmo. O mercado hoje está muito padronizado.
O projeto da nova coleção investiga as relações entre força e delicadeza, entre tecnologia e artesania. Cada peça parte de elementos do ecossistema brasileiro, da Mata Atlântica à Amazônia, dos insetos polinizadores às arquiteturas naturais, traduzidos em volumetrias sinuosas, tramas envolventes e estruturas que parecem nascer da própria paisagem. As peças remetem a asas, conchas, ninhos e colônias naturais.
A marca irá editar outras criações suas?
A Artefacto comercializa tudo o que produzimos dentro do estúdio, tanto as novas criações quanto as peças anteriores. Desde dezembro do ano passado, quem quiser uma peça do Estúdio Sérgio Matos encontra essa produção comercializada pela Artefacto.
Seu trabalho como designer faz uma ponte entre o território que você investiga e o produto final lançado no mercado, une saberes tradicionais e contemporaneidade. Como organiza teu trabalho de criação junto a esses povos e como estabelece a relação com o território?
O trabalho junto às comunidades, principalmente indígenas, ribeirinhas e comunidades que trabalham com artesanato, é diferente do que fazemos dentro da indústria. Nesses projetos, presto um serviço, atuo como consultor do Sebrae, do Governo do Estado e de outras instituições, como a Unesco, e os produtos são desenvolvidos para essas próprias comunidades.
Sou um dos consultores e entro com a parte de design, enquanto outros profissionais trabalham com empreendedorismo, redes sociais, fotografia e outras áreas. A ideia desses projetos é tornar cada artesão independente, para que possa seguir seu caminho mesmo depois da nossa passagem por lá. A gente não comercializa as peças, preparamos esses artesãos para que eles próprios possam vender sua produção e cuidar do seu mercado, sem depender do Sebrae ou de outras instituições. Preparamos justamente para que sejam autônomos.
Buscamos fazer com que essas pessoas reconheçam o próprio potencial e tomem consciência da importância que têm para a cultura brasileira, para a identidade dos povos, das regiões e dos territórios, para o sentimento de pertencimento e, muitas vezes, para a própria ancestralidade.
A proximidade do design com o artesanato sempre foi objeto de suas consultorias dirigidas às comunidades artesãs, muitas vezes com o Sebrae. Essas experiências permanecem?
Eu acredito muito nesse trabalho junto ao Sebrae e nas consultorias, principalmente pela possibilidade de valorizar as pessoas e fazer com que elas enxerguem o potencial que têm, mesmo vivendo dentro de uma floresta, isoladas ou em lugares distantes do Brasil. A gente quer mostrar que aquilo que fazem nesses lugares é lindo, tem força e identidade. Buscamos fazer com que essas pessoas reconheçam o próprio potencial e tomem consciência da importância que têm para a cultura brasileira, para a identidade dos povos, das regiões e dos territórios, para o sentimento de pertencimento e, muitas vezes, para a própria ancestralidade.
O artesanato é uma das ferramentas para manter essa cultura viva nesses lugares, mas precisa ser rentável para que as pessoas possam viver dele e não precisem trocar suas peças por comida ou roupa usada, como acontecia anteriormente. A gente quer que essas pessoas se valorizem e que o mercado também valorize o trabalho que produzem.
Eu acredito que o móvel seja atemporal quando conta a história de um lugar, de quem fez e de onde veio o conceito e a inspiração. Porque cadeira por cadeira, por exemplo, existem milhões. Mas a cadeira que vai contar uma história, representar um território, um tipo de trama ou um trabalho específico, para mim, essa cadeira é atemporal.
Você afirma que seu território é atemporal. Como se dá a tua pesquisa e o que te inspira?
Eu acredito que o móvel seja atemporal quando conta a história de um lugar, de quem fez e de onde veio o conceito e a inspiração. Porque cadeira por cadeira, por exemplo, existem milhões. Mas a cadeira que vai contar uma história, representar um território, um tipo de trama ou um trabalho específico, para mim, essa cadeira é atemporal. Ela carrega gente! Carrega histórias de pessoas, histórias do lugar, das tramas, das vivências. E, algumas vezes, conseguimos trazer até o lado espiritual de quem produz essas peças, como acontece no artesanato.



































