“Uma muvuca boa”. Assim respondeu minha anfitriã, Bete Paes, quando perguntei o que era, para ela, a maior feira de artesanato da América Latina: a Fenearte, Feira Nacional de Negócios do Artesanato. E Bete tinha razão. Como a palavra, de origem banto, sugere, a feira é, de fato, uma “aglomeração ruidosa”, uma “agitação de pessoas em celebração”, uma mistura de gentes, tempos e territórios que se transforma em um grande “caldeirão cultural”, como bem definiu a arquiteta Roberta Borsoi, outra anfitriã no Espaço Janete Costa. Localizado logo na entrada do pavilhão, com acesso livre ao público, esse espaço abriga também os Salões de Arte Popular, das Artes Religiosas Populares, de Arte Sustentável e o Pernambuco Faz Design.
Minha chegada a Pernambuco, dias antes da abertura da feira, concedeu-me o privilégio de acompanhar a montagem do Espaço Janete Costa, sob a curadoria da arquiteta Roberta Borsoi e da designer Bete Paes, já citadas. Roberta, filha dos arquitetos Janete Costa e Gil Borsoi, e Bete, colaboradora de Janete por muitos anos, são hoje responsáveis por preservar e dar continuidade ao legado dessa personagem fundamental da cultura brasileira. Arquiteta de interiores, Janete Costa foi, acima de tudo, uma notável estudiosa e divulgadora da arte popular brasileira, reconhecida por inserir a produção de mestres e artesãos no universo da arquitetura de interiores e por contribuir decisivamente para sua valorização na casa brasileira.[1]

Meu primeiro contato com toda essa história aconteceu em 2012, quando visitei a Fenearte pela primeira vez… E lá se vão 14 anos! Naquela ocasião, fui convidada pela artista gaúcha Heloísa Crocco para ir a Olinda, onde ela participaria de conversas no Espaço Interferência[2] Janete Costa. Organizei-me de última hora para encontrá-la nos Quatro Cantos de Olinda, hospedando-me na pousada de mesmo nome, onde também estavam Heloísa e a curadora, historiadora e crítica de design Adélia Borges.

cultura popular e influência até hoje o design brasileiro, segundo a jornalista e pesquisadora, Adélia Borges
Esses encontros deixam marcas. Tive a sorte de estar com meu laptop à mão para ajudar Adélia a recuperar os arquivos da palestra sobre Design + Artesanato – o caminho brasileiro, título de seu livro. Da conversa participaram também o designer Renato Imbroisi e as curadoras Bete Paes e Roberta Borsoi.

Meu interesse pelo artesanato, no entanto, vinha de muito antes. Ainda criança, colecionava loucinhas de barro adquiridas nas visitas ao Mercado Público de Florianópolis e, mais tarde, fiz da visita a ateliês de artesãos e artistas uma forma de me aproximar de seus saberes e fazeres. O encontro com a Fenearte e, sobretudo, com as pessoas que ali conheci e a própria trajetória de Janete Costa, fortaleceu essa conexão, tornando as viagens a Pernambuco uma prática recorrente de pesquisa e deleite.
Fechando esse parêntese temporal, volto à 26ª edição da Fenearte, dedicada aos seleiros, trazendo o couro — material profundamente presente no imaginário pernambucano — como homenagem aos mestres e mestras que o transformam em peças de abrigo, proteção e ornamento. No Espaço Janete Costa, os arabescos de influência islâmica presentes na ornamentação dos seleiros inspiraram o projeto expositivo deste ano, retomando as origens do Espaço Interferência idealizado por Janete Costa, ao recriar ambientes da casa com obras de artistas, designers e artesãos.

Foi também nesse espaço que aconteceram as Conversas Instigantes, encontros que reúnem convidados para um papo bom. Participei da conversa mediada por Lufe Gomes, intitulada Uma Casa Pernambucana, Clarinho que Sim (ótimo título!), com a participação dos arquitetos Carol Mapurunga, André Moraes e Zé Vagner, autor da premiada Casa de Mainha. Além da arquitetura, as conversas abordaram temas como moda, arte, sustentabilidade e o fazer artesanal, incluindo uma inspiradora participação d’Os Gêmeos, que compartilharam reflexões sobre seus quarenta anos de trajetória artística.

Um encontro, em especial, alegrou-me profundamente: me deparar com o artesão catarinense Jair Farias entre os convidados do espaço, posicionado ao lado do grande homenageado da edição, o mestre Expedito Seleiro, de Nova Olinda, Ceará. Ver um artesão do sul dialogando com mestres consagrados e novos designers pernambucanos evidencia talvez o aspecto mais potente do Espaço Janete Costa: promover encontros e incentivar o trabalho coletivo entre diferentes agentes, revitalizando continuamente o objeto artesanal.
Com cerca de 700 estandes, 5 mil expositores e 64 mestres, mestras e descendentes da artesania tradicional pernambucana, reunidos na chamada Alameda dos Mestres, a Fenearte consolida-se como um dos maiores encontros voltados à economia criativa do país. A programação extrapola os limites da feira, reunindo moda autoral, design, gastronomia, música e um amplo circuito de exposições que se espalha pelo Centro de Convenções e por diferentes espaços da cidade, no chamado Circuito Fenearte.

Entre as mostras que mais me mobilizaram, destaco Design PE – Entre Matéria e Memória, organizada pelo Coletivo Paranambuco Design[3], que ocupou o histórico Palácio do Comércio, no Marco Zero, reunindo cinquenta peças de vinte e quatro designers pernambucanos de diferentes gerações. Destaco também O Agreste Encourado, da fotógrafa Maryane Martins, com imagens dos seleiros de Cachoeirinha apresentadas em painéis inspirados nos moldes dos recortes de couro, e Cozinha Sertaneja: Comer para Resistir, que abordou a relação da casa sertaneja com a alimentação, compreendendo a cozinha como espaço de convivência, resistência, reinvenção e transmissão de saberes. Como sintetizam seus curadores Bruno Albertim e Lúcio Omena: “o sertanejo, antes de aprender a cozinhar, aprendeu a permanecer”.
Inspiradas pela exposição Cozinha Sertaneja: Comer para Resistir, em um dos intervalos de almoço durante a montagem do Espaço Janete Costa, eu e Bete seguimos para o Restaurante Arvo, um dos três espaços do chef pernambucano Pedro Godoy. Ali provei um peixe com arroz de moqueca de siri, finalizado com molho de coco e salada de coentro, delicioso, embora nada tenha superado a entrada: rolinhos vietnamitas que ainda hoje me dão água na boca só de lembrar.
Sentadas no jardim do restaurante, entre duas construções cujas paredes exibiam grafites de artistas locais e peças de barro distribuídas entre as mesas, avistávamos um grande painel anunciando a Fenearte. A cena sintetizava algo que eu vinha percebendo desde minha chegada: a feira já não parecia ocupar apenas o pavilhão, mas espalhar-se, integrando-se ao cotidiano da cidade. Nas conversas durante os deslocamentos por Recife e Olinda, não encontrei ninguém que, ao ser perguntado sobre a Fenearte, não a conhecesse e, quase sempre, não lembrasse com entusiasmo de alguma peça adquirida em uma de suas edições.
Instigante perceber que o Governo de Pernambuco compreende o artesanato como um de seus maiores patrimônios culturais, reconhecendo nele uma das expressões mais potentes da história, da identidade e dos modos de vida de seu povo. Essa compreensão ultrapassa a dimensão simbólica: a Fenearte é também entendida como um ativo estratégico para a economia criativa, recebendo investimentos contínuos e ações de divulgação tanto no Brasil quanto no exterior. Nesta edição, por exemplo, contou com o apoio da ApexBrasil por meio dos projetos Feito à Mão e Exporta Mais Brasil Artesanato, que promoveram rodadas de negócios aproximando artesãos de compradores de oito países.
Essa edição da Feira foi grandiosa. Ainda assim, concluo que a maior emoção que levo de todos esses dias vividos por lá e que, afinal, motiva esta escrita, é o encontro com os artesãos. Conhecer suas histórias e as de seus artefatos feitos em cerâmica, madeira, couro e fibras naturais; saber de que territórios vieram, de quem descendem e do imaginário que se inscreve nas formas, nas cores, nas texturas e nos modos de fazer é o que verdadeiramente me encanta.
É impossível não lembrar da queima das cerâmicas do duo Ricardo Francisco e Marcos Torres, do Bonecos de Pilão, em forno de barro a lenha, em Tracunhaém; das cores vibrantes das ilustrações em cerâmica de Guilherme Lira, da Ceramiquinho, no Recife; ou da boa conversa com tantos artesãos e artesãs que compartilharam suas histórias de origem e de ofício. Como a mestra Neguinha, que aprendeu a modelar o barro com a avó e a mãe, em Belo Jardim, no Agreste pernambucano, transformando hoje panelas e potes em cabeças e bichos que guardam as memórias de sua infância.
É dessa troca, dessa circulação de histórias, saberes e afetos, que nasce a alegria dessa “muvuca boa”. Talvez por isso eu queira trazer um pouco de tudo comigo, nos objetos escolhidos, nas lembranças e nas conversas que continuam ecoando depois da viagem. E, claro, como acontece todos os anos, voltei para casa com a mala cheia, com um vestido novo bordado pelas artesãs da Comunidade Quilombola Conceição das Crioulas, coletivo de mulheres que carregam a memória e a ancestralidade no território quilombola de Salgueiro, e um sapato de Jailson Marcos, cujas formas e cores traduzem a cultura nordestina em uma linguagem autoral.
Ao calçá-lo, lembrei-me da herança cearense de meu avô paterno, parte da história que também me constitui. Quem sabe seja essa uma das ligações invisíveis que explicam por que me sinto tão em casa no Nordeste do Brasil.
Anfitrião de delicadezas
Ser artesão é estar na casa de milhares de pessoas”…e isso é bom! Disse Neguinha, em uma sábia síntese do que é o espírito da Fenearte…poder carregar em uma peça um mundo todo.

Poderia seguir contando os encontros, as conversas, as cores e os sabores desfrutados nesses dias de Fenearte, mas é preciso encerrar esta escrita. Faço isso narrando um último encontro, proporcionado por minha querida Bete Paes que, preciso exaltar, foi a melhor anfitriã que eu poderia ter na Feira. Refiro-me à fortuna de conhecer a coleção de arte — dita popular, classificação que o próprio colecionador contesta — de Carlos Augusto Lira.
Visitamos, primeiro, seu escritório de arquitetura, instalado em uma casa em frente à Praça de Casa Forte, hoje transformada no Instituto Lira, onde parte de seu acervo é apresentado. Depois, seguimos para sua residência, localizada em uma bela vila de casas coloniais no bairro de Apipucos. A experiência foi singular. A coleção, imensa e rara, espalha-se por todos os cantos da casa, cuidadosamente integrada aos diferentes ambientes, convivendo cotidianamente com o morador e seus visitantes.
Carlos Augusto é um anfitrião de delicadezas. Recebe-nos servindo potes de cocada de diferentes sabores, coco branco, coco queimado e abacaxi, que saboreávamos enquanto ele narrava, com paixão, a história de cada peça. Muitas delas estavam ali, ao nosso lado, convivendo silenciosamente com a casa, em encantamento e beleza!
Quando se referia a mestre Galdino “em cada obra dessa tem uma história, têm uma poesia, tem uma música “... Carlos Augusto mostra a sua paixão pela arte feita por Galdino, de Caruaru, em Alto do Moura. (verbete da foto)
[1] Janete Costa – Um olhar, novembro 2012. Museu Janete Costa de Arte Popular. Catálogo da exposição. Curadoria de Mário Costa Santos.
[2] “Interferir sem ferir”, uma das máximas de Janete Costa, visionária arquiteta que valorizou a
cultura popular e influência até hoje o design brasileiro, escreveu Adélia Borges sobre a arquiteta
[3] O Coletivo Paranambuco Design,grupo de designers de mobiliário e objetos de diferentes cidades e gerações do estado de Pernambuco, unidos para valorizar a identidade regional, a tradição artesanal e o design autoral contemporâneo.






































