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“Quando tudo isso acabar” apresenta o diário de uma artista na pandemia

Exposição marca a primeira individual de Kamilla Nunes, dia 11 de março, na Helena Fretta Galeria de Arte.

Por Redação Publicado em 6 de março de 2021 Notícias 6 min de leitura
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Há quase um ano embarcamos numa outra realidade, cujo cenário desenhado pela pandemia do Covid-19 instaurou medos e produziu dor para além do corpo individual. Nosso corpo coletivo e social afundou num contexto viral. Como dar conta dessa maré? Navegando em um lugar ainda desconhecido, a curadora e artista Kamilla Nunes apresenta “Quando tudo isso acabar”, uma série que surgiu como forma de lidar com esse dramático momento. A partir de 11 de março, ela realiza a primeira individual na Helena Fretta Galeria de Arte com lançamento do catálogo em versão digital gratuito – o impresso estará à venda na Galeria.

“Quando tudo isso acabar” reúne a produção diária e intensa do período de quarentena, são 288 desenhos, e coloca Kamilla a experienciar o lugar de artista – sua primeira individual foi em 2019, no Memorial Meyer Filho. A seguir, uma seleção de trechos dos textos do catálogo da artista.

Essa série de pinturas surgiu, ainda, a partir de um poema de Ana Cristina Cesar, cujo verso dá título à obra. Lado a lado, elas formam uma espécie de gráfico, de tábua da maré. O mar, aqui representado com uma massa de tinta acinzentada, pesa como concreto na paisagem, de modo a deixar dúvida sobre o que ancora, de fato, essa casa: se a âncora, que aparece sempre suspensa, ou se o mar, aqui intranspassável e instransponível”. Kamilla Nunes
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A casa era uma ilha ancorada pela paisagem, 2021. Tinta acrílica e spray sobre papel. 100 x 70 cm.
Nos instantâneos de ”Quando tudo isso acabar”, Kamilla Nunes, tenta fixar – em tinta e água – o acúmulo destes dias desassossegados, opera como testemunha de uma época de indefinições e suspensões, questionando e apontando o contínuo confronto entre privado e público, revelando fragilidades e rupturas sociais. A comunidade se dissipou a ponto de perder o comum, o laço, e tudo passou a ser espera e escape: Aline Natureza.
Mais de uma década depois de estudar artistas e realizar várias incursões como curadora, Kamilla Nunes se permitiu experienciar o lugar de artista. O olhar acurado para a produção alheia trouxe à tona a urgência de trabalhar suas próprias inquietações. A curadora abriu espaço para a artista, entendendo que ambas são facetas que se desdobram, intensificando uma atitude criadora crítica, agora não mais contida. Trata-se, pois, de não somente reconhecer o gesto da arte, mas se reinventar a partir dele para inaugurar outros possíveis. Sandra Nunes.
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AR, 2021, Serigrafia e tinta acrílica sobre papel Heritage 300g, 100% algodão. 29,5 x 41 cm.
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R
assim mesmo, empilhado, como os corpos que vemos todos os dias nos telejornais e nas redes sociais. Sobrepor uma letra à outra foi uma maneira de não nos deixar esquecer que o AR não é apenas uma mistura de gases que compõem a atmosfera, um desenho sobre papel ou um trabalho de arte, AR é falta, é agonia, é luta. AR foi o que faltou a milhões de pessoas assoladas pela pandemia. O mesmo AR que é essencial à vida, e que só notamos quando nos falta, talvez tenha  sido, contraditoriamente, o maior motivo de desespero e medo dos últimos tempos. Kamilla Nunes.

 

As redes de diálogo, referência e apropriação que aparecem na grande maioria dos trabalhos de Kamilla Nunes revelam, por um lado, seu vasto conhecimento de arte latino-americana contemporânea e, por outro lado, sua habilidade de pescar atravessamentos com precisão e  potência, adquirida por meio de uma longa experiência como artista-curadora. Débora Pazetto.
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Varredura, 2021. Tinta acrílica sobre tela, 14×18 cm.
Na seção de meteorologia do Jornal do Brasil, em 1968, dia seguinte à decretação do AI-5,foi  publicada a sequinte nota: “Previsão do tempo: Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos. Máx.: 38º, em Brasília.Mín.:5º, nas Laranjeiras”. Nesta pequena pintura, ajustada acima da altura média dos olhos do espectador, essa nota se repete com a ausência de lugar, e de temporalidade. Um texto que serviu pra driblar a censura no ano mais duro da ditadura militar, retorna acentuada em 2021, num contexto de pandemia, de ódio, de fakenews, de genocídio e de desmonte do país. Kamilla Nunes.
Como fazer arte quando se assiste diariamente um genocídio [que segue tendo cor, gênero e classe]? “Todas as razões para fazer uma revolução estão aí. Não falta nenhuma” – todo dia um desastre pra acumular – “de nada somos poupados, nem mesmo de estar informados sobre isso” [Comitê Invisível]. Quando tudo isso acabar se oferece como testemunho: covas abertas, caixões de papelão, neofascismo, fake news, florestas incendiadas, falta de ar, falta de sol, falta de esperança. E os canalhas de sempre. Débora Pazetto.
“Que é, pois, o tempo?” Intuir a temporalidade da existência – problema metafísico primário de Santo Agostinho a Arnaldo Antunes. Contra o tempo cronológico da sucessão de minutos, o tempo existencial é REC OME ÇAR, é AGORA, é QUANDO tudo isso acabar, é HOJE ficamos por aqui, é HAY QUE SEGUIR soñando. Quando, hoje, agora, hay que são lastros poéticos de um tempo no qual os dias têm escorrido pelas mãos ou vazado dos calendários. Débora Pazetto.
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À pele, ao fundo, 2021. Impressão sobre papel Hemp. 60% Hemp Fibre e 40% Cotton White. 90 x 60 cm. 2021.
Dois corpos, um abraço. Imagens que sintetizam muitos dos sentimentos que vivemos durante o período de confinamento social. Se por um lado o abraço guarda a memória do contato, do afeto, do desejo, do encontro, por outro passou a ser também o espaço do contágio, do medo e, por isso, do distanciamento. Quantos abraços deixamos de dar todos os dias? Kamilla Nunes.

artista Kamilla Nunes

Kamilla Nunes – Artista, curadora independente, crítica de arte e professora, atualmente doutoranda no Programa de Pós-Graduação do Ceart/Udesc. Foi gestora do Espaço Embarcação, em Florianópolis [2015 a 2018], curadora do Espaço Cultural O Sítio [2015] e diretora do Instituto Meyer Filho [2010 a 2014]. Integrou o grupo de curadoria de Frestas Trienal de Artes [SESC, 2014, Sorocaba] e idealizou a Rede Artéria em parceria com o artista Bruno Vilela [arteria.art.br]. É curadora do programa de exposições do Memorial Meyer Filho desde 2008 e autora do livro “Espaços autônomos de arte contemporânea”, lançado em 2013 através da Bolsa Funarte de estímulo à produção crítica. Atualmente pesquisa e ministra aulas sobre Arte Brasileira Contemporânea e está desenvolvendo um processo de criação que fricciona campos do conhecimento, como a psicanálise e o materialismo histórico, por exemplo. Interessa perceber como os sistemas de linguagens se revelam, quais relações existem, hoje, entre o indivíduo e o coletivo, entre o pessoal e o político.

Serviço

O que? Exposição individual “Quando tudo isso acabar” de Kamilla Nunes

Quando? de 11 de março a 10 de abril |

Horário?   seg a sex – 9h às 18h30 | sáb – 9h às 13h

Onde? Helena Fretta Galeria de Arte | Rua Presidente Coutinho, 532. Centro, Florianópolis, SC.

Contato? (48) 98408-2345 / www.helenafretta.com.br

Fonte: catálogo e assessoria de imprensa.