O que um objeto cansado tem a dizer? Deslocados do seu contexto, o que permanece? Essa é uma das questões que orientam “Objetos Cansados”, do artista Joélson Buggilla na Sala Edi Balod, da Unesc, em Criciúma. A abertura será dia 4 de agosto, às 19h30, com uma conversa entre o artista e o escritor Felipe Moreno, autor do texto que acompanha o trabalho.
A ocupação integra a pesquisa Cartografias do Cansaço, desenvolvida desde 2022. Objetos retirados de seu contexto habitual repousam sobre espumas de diferentes alturas e espessuras, deslocando o olhar. A obra permanece aberta à participação do público, que pode sugerir e entregar objetos para integrar a instalação, tornando-se parte da pesquisa.
Natural de Criciúma e radicado em Florianópolis, Buggilla construiu sua trajetória entre a produção artística, a pesquisa e o ensino. Estudou Artes Visuais pela Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC), frequentou o grupo de estudos da Escola Entrópica, no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo/SP, e foi selecionado para o Programa de Formação de Práticas Artísticas Contemporâneas da EAV Parque Lage, no Rio de Janeiro. Foi vencedor do Prêmio Aliança Francesa de Arte Contemporânea onde realizou residência na Cité Internationale des Arts, em Paris, e participou da residência artística na Jan van Eyck Academie, na Holanda.
“Objetos Cansados”
Entrega de objetos para o artista: Até 28 de agosto
Visitação: até 14 de agosto
Abertura + conversa: 4 de agosto, às 19h30
Local: Sala Edi Balod – Espaço de Exposições e Laboratório de Artes Visuais | Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc) – Av. Universitária, nº 1105 – Bairro Universitário – Criciúma (SC)
Entrada gratuita
“Objetos Cansados” por Felipe Moreno*
Martelo, livro, panela, molho de chaves: que fazem esses objetos à margem daquilo que lhes é designado? Um martelo que já não bate, uma panela que não esquenta nem chia, um livro não devorado, um molho de chaves distante de portas e fechaduras. Objetos disfuncionalizados , relacionais, apenas, com suas disfunções temporárias — e de tudo que irrompe a partir desse gesto, em mesma medida, simples e contraventor. Matérias morosas, interrompidas de movimento, afundam e gravam o macio. E o que a gravidade de seus corpos, de distintas matérias, pode conferir à superfície espumosa? Vamos repetir: gravidade, gravura: eles retumbam na espuma e, gestado o tempo lento, imprimem suas formas no pedaço que lhes serviu de abrigo à pausa, à interrupção da rotina maquinal, agitada, ruidosa. Suspensão e densidade: quase antônimos, mas não aqui. Na suspensão de seus ofícios de natureza, exaustos de operar as convencionalidades, os objetos adensam e produzem as diferenças. Ou, por outra, relaxam e, no seu improvável, no seu extraordinário relaxar, fazem emergir as possibilidades: curiosidade, estranheza, repúdio, bem-estar, perplexidade. A disfunção rumo à quietação provoca, no mínimo, um rasgo (um rasgo macio?) à condição desses inúmeros corpos hipnotizados pela supremacia da utilidade e da aceleração. Também é o ócio que nos privaram, nos roubaram. No lugar, inocularam a obsessão da identidade fixa, competência, performance e produtividade — esta última que só é reconhecida através do frenesi, da aceleração com cada dia menos margem de recuo, do superaquecimento dos sentidos. O burnout , fenômeno epidêmico do contemporâneo, vai além dos corpos e mentes; antes, define todo nosso sistema-mundo: neurônios e atmosfera terrestre superaquecem, rumo à exaustão e saturação completas, em razão da mesma cisma pelo excesso de atividade laboral, com uso de matéria tóxica, a fim de que produção e crescimento mantenham a ascensão contínua. A matriz dos estados de hipertrofia e febre generalizados é o progresso, esse deus que ainda não conseguimos matar — ou, ao menos, fazer relaxar. Ordem e progresso: coloquemos a cansada bandeira do Brasil sobre uma espuma e, em vez de tremular em hastes ou berrar em janelas e varandas, quem sabe ela descanse do seu cansaço; quem sabe ela negative seu positivismo e, assim, provoque outros sentidos e sensibilidades. Suspender — ou descansar — é abrir caminhos à invenção, à inventividade. Correr e acumular já nada criam, fingem que criam, mas enganam, iludem: somente acumulam, empilham e homogenizam experiências. A desembestada ordem do capital não tem outro
objetivo a não ser colonizar todas as instâncias da vida. Uma de suas maiores ambições é
tomar posse do nosso sono, instância final ditada, ainda, pela biologia. Jonathan Crary,
ensaísta e crítico de arte, nos fala desse operar em lógica 24/7, ininterruptamente, no estágio
de um capitalismo tardio, abolidor do sono — e dos sonhos. Assim seremos, seja ao meio-dia
ou às quatro da manhã, hamsters aditivados na roda que nunca para de girar.
O tecnocapitalismo do século 21 é o vírus já instalado em praticamente todos os
organismos vivos e contra o qual nenhum projeto socialista ainda foi capaz de produzir
vacina. Na pejotização da vida, o descanso não paga as contas, a vadiagem leva à miséria.
Andamos dessensibilizados à monotonia, desaprendidos das suas virtudes. Andamos inimigos
do ócio, exorcistas da vadiagem, esterilizadores da inatividade. Assim, mal damos conta que o
algoritmo já somos nós, em carne e consciência: código físico que apenas responde, sem
pausa justa ou hesitação, a miríade de problemas proposta pela máquina-chefe, num mesmo
prompt cego que só sabe operar pelo mais, mais, mais… e que atendemos, de imediato,
conduzidos por um mesmo circuito que já não reconhece outro campo, outra rede que pudesse
divergir da instrução, dizer não. Mesmo fora do trabalho, nos forçamos à superexcitação:
dentro das telas, dos feeds, dos reels , dos snaps , das bets. Lembremos do alerta: o mundo
digital nunca pausa ou repousa.
Mas o corpo, qualquer corpo cansado, que suspende a tarefa operacional, adensa e
descansa, o faz em gesto consciente; não o faz pela busca do prazer instantâneo, e seu
relaxamento tampouco tem a ver com desleixo. Trata-se, em último caso, de um gesto de
rebeldia consciente e uma sofisticada técnica de cuidado. De cuidado e atenção — para falar
de Simone Weil. E de uma vadiagem bem praticada, que nos recorda Nêgo Bispo.
Aqui, agora, por enquanto, podemos interagir com esses objetos que nada giram ou
consomem: o que eles podem nos provocar? A partir de seus cansaços, sua gravidade nas
espumas, no seu relaxamento e quietação, que perguntas podem fazer e que respostas podem
dar aos nossos corpos superaquecidos, frenéticos, portanto exaustos, que imploram a
suspensão do funcionamento das máquinas que se tornaram? Quando fora de seus
expedientes, anulados de seus serviços, é bonita e marcante as instruções que brotam pela via
não-humana, inanimada: se existe uma estética, também existe uma ética, uma pedagogia e
uma terapêutica do travesseiro, do serrote, do óculos, do liquidificador e da rede.
*escritor e editor de livros artesanais






































