A arquitetura contemporânea tem sido cada vez mais compreendida como processo, adaptação contínua e transformação permanente. Nesse contexto, tornou-se comum descrevê-la como “líquida”, deslocando a ideia de projeto do campo da estabilidade para o da decisão. Em uma arquitetura pensada nesses termos, a permanência deixa de ser um dado e passa a ser uma escolha. Isso, no entanto, não significa que a fluidez do tempo contemporâneo autorize o esvaziamento das referências culturais que estruturam a experiência urbana; ao contrário, exige maior precisão crítica e técnica diante daquilo que se transforma sem perder sua continuidade histórica. Às vezes, escolhas que confundem transformação com substituição se materializam na perda concreta de uma obra de valor cultural, como tem ocorrido em Florianópolis nos últimos anos. É nesse contexto que a recente demolição de um painel do artista catarinense Hassis reacende um debate que ultrapassa a perda de uma obra específica e expõe fragilidades recorrentes na relação entre arquitetura, arte pública e processos de renovação urbana.
A destruição da obra evidencia como processos contemporâneos de transformação urbana ainda tratam a arte integrada como elemento removível, e não como parte constitutiva do projeto arquitetônico, do espaço público e da memória coletiva
Nascido em Florianópolis em 1937 e falecido em 2001, Hiedy de Assis Corrêa, conhecido como Hassis, foi um dos principais artistas visuais de Santa Catarina, com reconhecimento nacional e uma trajetória diretamente vinculada à cidade. Criado em 1972, um de seus painéis permaneceu por quase cinquenta e cinco anos em uma edificação no centro de Florianópolis. Localizado no muro da antiga Clínica de Olhos São Sebastião, na rua Armínio Tavares, o painel acompanhou gerações, reformas, deslocamentos e rotinas, mas foi demolido no início de 2026 durante uma intervenção imobiliária. A destruição da obra evidencia como processos contemporâneos de transformação urbana ainda tratam a arte integrada como elemento removível, e não como parte constitutiva do projeto arquitetônico, do espaço público e da memória coletiva.

Preservação da arte integrada: estratégias técnicas e precedentes
Ao contrário do que muitas intervenções recentes sugerem, a permanência de murais, painéis e obras de arte integradas à arquitetura não é incompatível com processos de retrofit, atualização técnica ou mudança de uso. Diversos edifícios, no Brasil e no exterior, demonstram que a preservação dessas obras depende menos de decisões heroicas e mais de escolhas técnicas conscientes, incorporadas ao projeto desde as primeiras etapas. No Brasil, há precedentes de murais integrados à arquitetura que ganharam atenção técnica e institucional para sua preservação. Em Curitiba e em outras cidades do Paraná, obras do artista Poty Lazzarotto permanecem preservadas em edifícios e equipamentos públicos, inclusive após reformas e requalificações, demonstrando que a integração entre arte e arquitetura pode ser mantida mesmo diante de intervenções e mudanças funcionais.

Em contextos de demolição total ou parcial da edificação existente, a preservação de murais e painéis integrados à arquitetura tem sido viabilizada por meio da adoção de sistemas de suporte independentes, capazes de dissociar a obra das tensões estruturais do edifício original. Um exemplo emblemático fora do Brasil é o mural Tower (1987), de Keith Haring, em Paris, originalmente pintado em uma escadaria externa do hospital Necker-Enfants Malades. Mesmo após a demolição da ala que abrigava a obra, o mural foi restaurado e mantido como elemento autônomo no novo conjunto hospitalar, funcionando hoje como marco urbano independente da edificação original. Situação semelhante ocorreu em Londres, onde um mural modernista de William Mitchell, criado em 1958, foi removido da estrutura que seria demolida e destinado à realocação em espaço público. O caso, divulgado pela imprensa britânica, demonstra que a retirada planejada da obra, aliada a soluções técnicas de suporte e conservação, permitiu preservar o painel mesmo diante de um processo irreversível de transformação urbana.

Além desses exemplos, estudos de conservação conduzidos por instituições especializadas em pintura mural documentam procedimentos técnicos recorrentes para o salvamento de paredes pintadas em situações de risco, incluindo corte controlado da alvenaria, reforço estrutural provisório e posterior reinstalação da obra em novos suportes. Esses casos evidenciam que, mesmo quando a edificação original não pode ser preservada, a obra integrada pode permanecer como referência material e cultural da cidade, desde que incorporada ao raciocínio técnico do projeto de intervenção.
Se a arquitetura contemporânea lida com o tempo como duração e não como permanência absoluta, é preciso reconhecer que fluidez não equivale a apagamento. Às vésperas do carnaval, quando Florianópolis se reinventa no uso intenso do espaço público, a demolição de um painel de Hassis evidencia como a celebração acrítica da fluidez urbana pode produzir descontinuidade, instabilidade e perda de sentido coletivo.




































