Hoje gostaria de atrair sua atenção para o prazer e a importância de estar sempre aprendendo. Qualquer pessoa deveria passar sua vida impondo-se novos desafios de aprendizagem: é o que afirmam os neurocientistas quando falam de saúde mental e neurológica, e também quanto à capacidade criativa. Seja na formação escolar, na formação profissional ou já na vida laboral o que realmente queremos é que além de boas pessoas, sejamos capazes de mudar e melhorar a realidade cotidiana e alcançar o prazer em nosso trabalho, e a felicidade durante o maior tempo possível.
Como arquitetos e designers de interiores em algum momento dizemos que estamos projetando sonhos, e sobretudo que desejamos ser criativos e nos diferenciar com nossos projetos, surpreender, encantar e, quem sabe entrar para a história de nossa categoria pelas contribuições que fizemos. Mas como podemos pretender alcançar isso sem ser através da imposição ao nosso cérebro de novos desafios, da ampliação de nossas experiências e de nosso intelecto?

A boa notícia é que os neurocientistas afirmam que as mudanças neurobiológicas são possíveis ao longo de toda nossa vida. Elas são o resultado de que nosso cérebro seja plástico em diferentes escalas e de que está se reorganizando continuamente devido às experiências vitais. Nosso cérebro nos brinda com novas possibilidades em todas as idades. Esta capacidade cerebral de adaptar-se e aprender chama-se NEUROPLASTICIDADE, e é o que nos permite formar novas conexões neurais e fortalecer ou debilitar outras já existentes. (GUILLÉM, 2017)
Como cada uma de nossas experiências têm um impacto singular, a plasticidade faz com que possamos nos liberar dos determinismos genéticos e que cada cérebro seja único. (MORA, 2008)
Como profissionais da área criativa chega um momento de nossa vida que parece que quase tudo já foi criado, discutido e inventado, e como um pintor diante da tela em branco ou um escritor diante da folha de papel vazia custa enamorar-nos de nossas criações, e na nossa área isso dói em nossa alma. Não significa que a cada projeto tenhamos que alcançar o auge criativo como uma linha ascendente vertiginosa, mas sem dúvidas seremos profissionais mais satisfeitos, agradaremos mais aos nossos clientes e contribuiremos mais com a sociedade quando pudermos, de tempos em tempos, dar um salto em nosso desenvolvimento.
Estudar sistematicamente
Para isso só há um caminho: desenvolver novos interesses, estudá-los sistematicamente e experimentá-los. Para o profissional das áreas de criação, os que buscam conceitos, todo contato com o novo pode ser fonte de inspiração: saber mais sobre determinada cultura, estudar assuntos transversais (como a neurociência para profissionais fora da área médica), voltar a estudar história da arte de uma forma não convencional, estudar um novo idioma, estudar mais profundamente certos temas dentro de sua área profissional (por exemplo cálculo estrutural ou outros temas que arquitetos e designers nem sempre se ocupam com profundidade; meio ambiente e sustentabilidade, uma área muito ampla mas que pode dar um novo rumo às nossas escolhas de materiais, por exemplo).
“A cultura na que se vive, como o idioma materno que se fala, altera a maneira como percebemos o mundo. A imersão em uma cultura modifica os padrões cerebrais com os quais se processa a informação”. (MORA, 2008)
Esta afirmativa do professor Francisco Mora em seu livro se baseia num estudo de análise meticulosa sobre como asiáticos e ocidentais focalizavam sua atenção diante da visão de um quadro. Os asiáticos focalizam sua atenção no contexto global do motivo do quadro, ou seja, no fundo e na relação de pessoas e objetos. Já os ocidentais focalizam primeiramente sua atenção nas formas e detalhes de pessoas ou animais que aparecem em primeiro plano, prestando menos atenção ao contexto ou ao fundo do campo visual. É uma forma bastante diferente de ver, é como se fosse outra perspectiva!
Reafirmando o dito anteriormente, uma forma muito interessante de crescermos profissionalmente é vivendo em outro país. Lembremos de tantos artistas famosos que viveram em três ou quatro países diferentes e lá desenvolveram novas experiências artísticas que impactaram a história. Mas nem todos podem realizar isso. Então por que não trabalhar em cooperação com um arquiteto ou designer estrangeiro? Se ainda assim parecer difícil, então tirar proveito do tamanho do Brasil e trabalhar, se você está no Sul por exemplo, com um profissional do Norte ou Nordeste? Imagine como isso pode mudar nossa forma de pensar e fazer nosso trabalho!

A arquiteta iraniana Zaha Hadid (1950-2016) foi educada em Bagdá, na Suíça e na Grã Bretanha. Voltou ao Oriente Médio para estudar matemática, e depois de concluir este curso foi para Londres estudar arquitetura. É muito chão percorrido, muita coragem e muita experiência para viver…, mas resultou no que todos conhecemos sobre suas obras. Foi a primeira mulher a receber o Prêmio Pritzker (2004) de arquitetura.
Existem inúmeros assuntos dentro de nossa área profissional que podemos estudar, mesmo aqueles que pensamos que já sabemos. Lembremos que a mesma categoria de informação quando é trazida por outra mente pode mudar completamente a visão que se tinha. Mas estudar outros temas distintos, sejam mais técnicos ou mais artísticos de outras áreas também ampliam nossa capacidade neurológica e consequentemente nossa visão.
Descobrindo o perfil estético do cliente
Ultimamente também tenho lido muito sobre as diferentes linhas da psicologia. Os psiquiatras Carl Gustav Jung e Sigmund Freud davam muita importância às imagens e aos sonhos como mecanismos de expressão do subconsciente. Através de suas abordagens as quais adaptei ao design de interiores pude ter ratificada minha teoria sobre uso de imagens aleatórias para ajudar a descobrir o perfil estético do cliente e como mecanismo para desenvolver uma conversação que faça o cliente relaxar e abrir-se para mostrar seus desejos inconscientes para um projeto, fora das influências dos modismos.
Em meu último artigo em colaboração com o Portal ArqSC falei sobre a Biofilia. Está aí um tema que surgiu há décadas atrás, mas que é urgente na atualidade. Creio ser um ótimo começo para começar a imergir em um novo estudo. Outros temas, a sustentabilidade e a neurociência também são sempre úteis em quaisquer áreas.
Professor Francisco Mora é doutor em medicina e neurocientista, uma das maiores autoridades no tema, na Espanha.

Bibliografia:
MORA, Francisco. Como funciona o cérebro. Madrid: Alianza Editorial, 2002.
MORA, Francisco. El científico curioso – la ciencia del cerebro en el día a día. Madrid: Ediciones Planeta, 2008.
QUIROGA, Rodrigo Quian. Qué es la memoria. Barcelona: Editora Ariel, 2018.
AGAMBEN, Giorgio. O homem sem conteúdo. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2013.
GUILLÉM, Jesús C. Neuroeducación en el aula – de la teoría a la práctica. CreateSpace Independent Publishing, 2017.