Após uma pausa de inverno britânico e verão brasileiro, Sedimento retorna em conversa com Drag Urbana, urbanista e ativista incorporada por Leonhard Bravo Seyboth. Nos últimos anos, a drag se tornou uma das figuras marcantes da luta pelo direito à cidade e de resistência às políticas liberais de uso do solo e meio ambiente em Florianópolis. Urbana fala sobre montação, ativismo digital e das ruas, e casos emblemáticos como a disputa em torno da Antiga Rodoviária e a privatização do Carnaval de Rua na cidade. Sedimento é uma newsletter bilíngue editada por Lucas Reitz publicada no Substack, em conjunto com o portal ArqSC, com apoio de divulgação do IAB/SC.
Quem é Drag Urbana com e sem make?
Drag Urbana – Eu me formei em 2023 na UFRGS e, quando terminei o curso, não fazia mais sentido permanecer em Porto Alegre. Foi então que me mudei e apesar de conhecer a cidade e ter família em Florianópolis, cheguei aqui meio no vazio, sabe? Sem um projeto estruturado do que eu faria. Eu vinha de uma pesquisa científica na UFRGS, na linha de sistemas configuracionais urbanos, com uma abordagem bem racional sobre tecidos urbanos e planejamento, com um olhar mais global, no território como sistema.
Em Santa Catarina, passei quase um ano num processo suspenso, tentando entender a cidade, entender o que eu queria fazer depois de formada, já que a prática de escritório nunca me atraiu. Mas, quando me formei, veio o choque: o urbanismo não tem um mercado tão definido quanto a arquitetura. Foi aí que comecei a estudar para concurso público. E nesse processo, estudando leis, eu comecei a entender o peso que essas palavras têm na transformação da cidade: como a legislação molda, literalmente, o espaço urbano. Ali percebi que havia um campo potente de atuação.
Foi mais ou menos nesse momento que a drag começou a aparecer. Ainda em Porto Alegre, eu comprei uma peruca numa loja que ficava na mesma quadra da minha casa, no Centro Histórico. Eu já consumia arte drag, assistia, acompanhava, mas ainda não entendia aquilo como algo que eu pudesse fazer. Eu só sentia que precisava me voltar para isso.
Os primeiros experimentos de combinar drag e ativismo nas redes sociais eram bem soltos, temas gerais. Um dos primeiros vídeos que fiz foi sobre o Sistema Nacional de Unidades de Conservação, uma lei dos anos 2000 sobre preservação ambiental. Esse vídeo, inclusive, se conectou com o desastre ambiental das enchentes no Rio Grande do Sul.
No final de 2024, tudo começou a se alinhar: eu passei no mestrado, com um projeto sobre segregação espacial no litoral catarinense, especialmente na região da foz do Rio Itajaí, Balneário Camboriú e Florianópolis. Ao mesmo tempo, foi também quando comecei a me aproximar da cena drag de Florianópolis, que é muito intensa — especialmente em espaços como a Opium e a Galeria Lama.
Em Porto Alegre, meu contato era mais mediado pela televisão, RuPaul, uma coisa mais distante. Aqui, eu vi pessoas reais fazendo aquilo, corpos presentes. E isso muda tudo.
A drag é uma ruptura de gênero, um questionamento do masculino — especialmente sendo um homem. Não é uma transição de gênero, é uma expressão.
Uma transmissão direta, não mais mediada…
Exato! Comecei sozinha, mas aos poucos outras drags foram me ensinando. Inicialmente, passei por um processo de frustração tentando algo mais “femme”, mais próximo do que drags como o RuPaul costumam validar. Mas aquilo não me representa mais. Eu não queria reproduzir uma feminilidade normativa. Para mim, a drag é uma ruptura de gênero, um questionamento do masculino — especialmente sendo um homem. Não é uma transição de gênero, é uma expressão. Eu não queria reproduzir opressões no meu próprio corpo. Não queria ser uma drag que reafirma padrões. Queria ser estranha, aceitar a imperfeição, assumir o lugar de iniciante como potência.
Se ficar estranho, ótimo — essa é a proposta.
E em qual momento isso tudo se torna público? Porque há a montação física, mas também uma montação digital.
A Urbana nasce primeiro no digital e depois vai para a rua, atravessada pelo contexto político, já que em 2024 era o ano eleitoral em Florianópolis. O prefeito [Topázio, PSD] ganhava espaço nas redes sociais, especialmente no TikTok, em um discurso muito eficiente do ponto de vista do marketing digital, o que me gerou uma frustração enorme como pessoa de esquerda. Eu sentia que não havia ninguém conseguindo disputar aquele espaço localmente – já que disputa política não acontece só na rua, ela acontece também nas plataformas. Foi aí que pensei que meu ativismo deveria ser digital, não como substituição da rua, mas como ferramenta de mobilização.
Meu primeiro protesto montada foi durante o processo de privatização do Carnaval de rua em Florianópolis. Os blocos se reuniram em frente à prefeitura contra a criação de arenas privadas, que cerceavam o uso do espaço público, no início de 2025. O protesto foi um encontro muito potente. Blocos afros, blocos LGBTQIA+, blocos tradicionais — mais de 40 coletivos reunidos em defesa da cidade. Nesse momento, percebi a força comunitária da minha montação. E a mensagem estava certa, porque passado um ano, o que vemos hoje é a continuação desse projeto de privatização: hoje ao acessar os espaços públicos definidos pela prefeitura você só pode consumir as bebidas dos vendedores da área.
Uma das respostas que dei à mobilização do carnaval foi criar um mapa dos blocos de rua de Florianópolis, que teve centenas de milhares de visualizações. Era uma defesa direta do Carnaval de rua como direito à cidade. Meu trabalho foi ficando cada vez mais ligado aos mapas e ao território de Florianópolis. Em seguida, fiz um vídeo demonstrando em mapas e imagens de satélite um extravasamento dentro de uma unidade de conservação na Lagoa da Conceição. O vídeo, que teve mais de 700 mil visualizações, ajudou a embasar a audiência pública do caso na Assembleia Legislativa (ALESC). Nesse caso, foi a primeira vez que fui montada à ALESC, com um look que remetia ao esgoto — saia curta, botas brancas. Era proposital! Meu discurso ali foi sobre o ataque aos serviços públicos: como não existe política ambiental sem estrutura, sem servidores, sem investimento.
Mais recentemente, sua imagem ficou bastante conectada com a luta pela preservação da Antiga Rodoviária de Florianópolis, ameaçada pelo conjunto de forças das políticas municipais locais e do setor imobiliário. Onde você se insere nesse processo de ativismo?
Foi logo depois desses movimentos que veio a Antiga Rodoviária. Tudo começou com a circulação de um vídeo de uma vereadora do PL defendendo a demolição do prédio e que era símbolo do abandono do poder público. Logo depois, o Leonardo Bertoldi, do Floripa Moderna, me procurou. Fomos juntas para a frente do prédio, explicar o valor histórico, urbano e social daquele lugar. A antiga rodoviária não era só arquitetura — era espaço público e memória popular, lugar da classe trabalhadora e de quem chegava na cidade. O vídeo também repercutiu muito, com arquitetos, pesquisadores e moradores se mobilizando. Houve um abraço simbólico ao prédio, com mais de 150 pessoas.
Nesse processo da rodoviária, eu pude explorar meus estudos urbanos com novas temáticas além do espaço público, como o patrimônio histórico. De um lado, demonstramos a importância histórica da edificação, mas também a gentrificação da região e a necessidade da permanência de terrenos e funções públicas no centro da cidade — principalmente pela localização estratégica da antiga rodoviária nos encontros de duas avenidas arteriais da cidade (Av. Hercílio Luz e Av. Mauro Ramos).
Muitos dizem que virou uma disputa de narrativa ideológica e sim, virou mesmo: de um lado está a prefeitura querendo privatizar um espaço público em nome do lucro imobiliário de grupos empresariais e do outro estamos nós demonstrando que é possível sim reutilizar a edificação e potencializar esse lugar como patrimônio de todos que vivem aqui.
Atualmente a antiga rodoviária vem passando por uma batalha judicial para definir se é patrimônio histórico ou não. Enquanto isso, o poder público abandona propositalmente o espaço, tornando-o inseguro a noite, deixando aberturas abertas e sem iluminação. O Ministério Público exigiu que medidas de proteção da edificação devem ser feitas até o final do processo, mas que vemos é uma morosidade por parte da prefeitura em cumprir as decisões judiciais. É sabido que o real motivo é que o prefeito quer vender o espaço pelo alto potencial construtivo que o terreno tem frente ao novo plano diretor, reiterado pelos posicionamentos de alguns vereadores e da Secretária Municipal de Habitação e Desenvolvimento Urbano.
Muitos dizem que virou uma disputa de narrativa ideológica e sim, virou mesmo: de um lado está a prefeitura querendo privatizar um espaço público em nome do lucro imobiliário de grupos empresariais e do outro estamos nós demonstrando que é possível sim reutilizar a edificação e potencializar esse lugar como patrimônio de todos que vivem aqui.
Você já expressou que foi a Urbana que levou você a ser convidada a dar aula em instituições e workshops, uma realização de um sonho pessoal. Onde mais a Urbana te levou?
Eu sempre quis ser professora, ensinar. A “Drag Urbana, a sua Professora de Urbanismo” nasceu como uma auto-nomeação, quase um gesto performativo. Ainda não sou professora universitária formalmente, mas esse é meu desejo. A partir da Urbana, comecei a ser convidada para dar aulas e palestras. Dei aula na UDESC Laguna sobre a antiga rodoviária, e em Curitiba, pela UTFPR e UFPR, sempre articulando urbanismo, política e território.
Também dei aulas na UFSC, em História, Ciências Sociais e Arquitetura. Para mim, foi uma realização enorme ser chamada por estudantes de arquitetura. Percebi uma diferença grande entre os cursos: História e Ciências Sociais têm um engajamento político muito mais direto entre os professores e estudantes. Na arquitetura, isso ainda é mais tímido e mais tecnocrático.
É importante que as pessoas entendam que somos a mesma figura política, que as ideias são as mesmas, que eu não coloco “máscaras” para me esconder, como já ofenderam minha proposta. A maquiagem drag é uma máscara que potencializa a minha visão de mundo e os pensamentos e conhecimento que quero passar adiante.
Ao mesmo tempo, a Urbana também me levou a atuar mais diretamente na política institucional. Fui convidada para trabalhar na ALESC pelo Deputado Estadual Marquito (PSOL), o que me deu uma compreensão mais concreta de como funcionam os instrumentos jurídicos e as disputas internas. Não são caminhos excludentes. A docência, a pesquisa e a política se alimentam na trajetória.
Hoje tento equilibrar a presença da Urbana montada e da minha figura enquanto homem gay. Nem sempre dá para estar montada, especialmente na velocidade que a internet exige. Mas é importante que as pessoas entendam que somos a mesma figura política, que as ideias são as mesmas, que eu não coloco “máscaras” para me esconder, como já ofenderam minha proposta. A maquiagem drag é uma máscara que potencializa a minha visão de mundo e os pensamentos e conhecimento que quero passar adiante.
Quando estou na rua, no Centro-Leste, as pessoas me reconhecem, falam comigo, agradecem. Isso mostra que o digital não fica só na internet — ele atravessa a vida real e tem potencial para a mobilização social. E o ativismo digital só faz sentido se virar mobilização real: rua, Câmara de Vereadores, audiências públicas.
Nesse caminho tenho levado as pessoas que estão ao meu redor, como amigos e familiares. As associações de bairro e senso comunitário também são fundamentais, pois são elas que organizam os protestos, agregam pessoas e fazem acontecer. É o que temos mais próximo de participação social ativa, das pessoas engajarem pelas lutas de seus bairros e estarem atentas ao desenvolvimento e planejamento da cidade. Não faltam exemplos pela ilha, o caso do movimento Verticalização Não no sul da ilha e do SOS Lagoa da Conceição são alguns deles.
Minha pesquisa sobre segregação socioespacial deixa isso claro: o projeto é transformar Florianópolis num território inacessível para a classe trabalhadora. Ainda há tempo de resistir. Mas isso exige organização, presença e escuta, e esse movimento só será possível se for coletivo. A minha voz é potente porque ressoa nas Orelhas de outros e incentiva outras vozes a se posicionarem também.



































