Um fato comoveu a comunidade sensível à preservação do patrimônio cultural em janeiro de 2026, em Florianópolis. A demolição de um prédio localizado na Rua Arminio Tavares, no Centro, destruiu o mural de um dos principais artistas modernos de Santa Catarina, Hiedy de Assis Corrêa, o Hassis. O episódio poderia não ter dado em nada, não fosse o potencial de transformação que gerou a partir do movimento das filhas do artista, diretoras da Fundação Hassis, da ampla comoção nas redes sociais e manifestações de repúdio por parte da própria Fundação, da Associação Catarinense de Artistas Plásticos (Acap), e da Associação Catarinense de Conservadores e Restauradores de Bens Culturais (ACCR).
Impactada pelo assunto, a jornalista Simone Bobsin trouxe o tema para sua quarta participação na Maratona Cultural 2026, em parceria com o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-SC). “Caminhada Cultural – Quem decide o que deve ser lembrado? Patrimônio cultural, poder e construção de futuros”, acontecerá dia 21 de março, às 10h30, com encontro no local onde o painel foi construído. A caminhada é aberta ao público e gratuita.

“Este episódio, que não é isolado em Florianópolis, ensina sobre a urgência de debate qualificado e público sobre a preservação do patrimônio cultural, a falta de informação dos agentes do mercado imobiliário e suas responsabilidades, e, por fim, sobre os critérios exigidos pela PMF para autorizar a demolição e a construção de novas edificações”, afirma a jornalista que atua nas áreas de arquitetura, design e arte.
A retirada do painel criado em 1972 – permaneceu por mais de cinco décadas no muro da antiga Clínica de Olhos São Sebastião – empobrece o espaço comum, fragiliza a relação afetiva da cidade com seus habitantes e revela a facilidade com que referências culturais podem ser apagadas do cotidiano urbano. Quando a arte pública desaparece, perde-se também a possibilidade de encontro, reconhecimento e pertencimento no espaço coletivo. A arquiteta e urbanista Luciana Florenzano, integrante da diretoria cultural do IAB-SC, afirma: “A ação parte do entendimento de que a preservação do patrimônio artístico integrado à arquitetura não pode ser tratada como uma questão marginal ou exclusivamente cultural, mas como parte estruturante das discussões sobre projeto urbano, responsabilidade técnica e políticas públicas para a cidade contemporânea”.
Desdobramentos
Como garantir que obras de arte inseridas no espaço urbano sejam preservadas? A partir do diálogo entre as filhas do artista, Luciana Paulo Corrêa e Leilah Corrêa Vieira, com a construtora Placon Empreendimentos, responsável pela demolição, será realizado o restauro de parte da obra que restou. Além disso, em conversa com a Prefeitura Municipal de Florianópolis, as obras que estão nas paredes laterais ficarão à mostra. As diretoras da Fundação Hassis sugeriram que fosse acrescentado nos pedidos futuros de alvará para demolição e construção critérios sobre a presença de obras de arte como forma de resguardar o patrimônio cultural. O documento está sendo elaborado pela prefeitura.
Percurso da caminhada
O percurso da caminhada cultural inclui a Rua Arminio Tavares, a Praça Dom Pedro I onde fica o Hemosc (avenida Othon Gama E’Deça), Rua Diniz Júnior e Rua Barão do Batovi, na Praça Osvaldo Bulcão Viana. Além da obra do Hassis, outros trabalhos oferecem novas abordagens da inserção da arte nos espaços públicos como os painéis de César Campos Júnior, Rodrigo de Haro e Cipriano.

Participam da caminhada cultural:
Luciana Paulo Corrêa e Leilah Corrêa Vieira – diretoras da Fundação Hassis
Luciana Florenzano – arquiteta, coordenadora do Grupo de Trabalho Patrimônio do Instituto dos Arquitetos do Brasil-SC
Marília Gabriela de Oliveira – arquiteta, Conselheira Titular de Patrimônio Material, no Conselho Municipal de Políticas Culturais FLN
Associação Catarinense de Artistas Plásticos (Acap) – Rodrigo Gonçalves
A confirmar: Placon Empreendimentos e PMF





































